← Voltar ao siteJanis H. Camargo

Conto · Memórias Capixabas

A Terceira Ponte

Ilustração colorida de um ônibus cruzando a Terceira Ponte

– Boa tarde, meus amados! Hoje estou aqui com uma novidade pra vocês: o sabonete de aroeira. Pra quem não sabe, a aroeira é uma planta medicinal super rica. É um ótimo cicatrizante! Serve pra todo tipo de ferida!

Daniela procurou os fones bluetooth na mochila e suspirou ao perceber que só tinha 10% de bateria. Os fones eram seu primeiro escape. Não se arriscava a ouvir música, porque a mente podia vagar. Escutava podcasts. Assim, sentia-se conversando com alguém, e isso a ancorava no lugar.

– E ele ainda aumenta a sua imunidade! É um anti-inflamatório. Ajuda em inflamação no estômago e previne doenças crônicas como Alzheimer. Pra quem não sabe, Alzheimer é uma doença horrível, que a gente não deseja nem pro nosso pior inimigo. Além disso, meus amados, é bom pra...

Ela guardou os fones e pegou o livro na mochila. Gostava de ler livros divertidos, pois a imersão era fácil. Naquele momento, lia um romance da Sophie Kinsella. Lê-la era tão fácil quanto tirar um cochilo no intervalo do trabalho. Não precisa se esforçar, pois o portal estava sempre aberto.

– ...acne, espinha, cravo... É um sabonete esfoliante, pra você passar no seu rosto. É anti-idade porque previne rugas. E ainda tira manchas, tá amados? Inclusive, não só do rosto como das partes íntimas também!

Daniela arqueou as sobrancelhas ao ouvir aquilo. Não queria prestar atenção ao que o vendedor dizia, mas não conseguia evitar. Olhou para o lado e viu o Shopping Praia da Costa. O fedor do valão entrou pela janela do ônibus. Ela estava bem perto agora, e ainda não tinha aberto o portal. Precisava atravessar antes de chegar na ponte...

– Quem tem candidíase, pode usar sem medo. Também é bom pra escara e queimadura, porque regenera a pele! É um quebra-galho pras donas de casa, viu? Pras mamães de plantão: mata fungo, bactéria, micose, tudo que você imaginar. E ainda é repelente contra insetos!

Olhou novamente para o livro aberto em seu colo, mas sua visão se desfocara. Às vezes, isso acontecia e precisava se esforçar para recuperar o foco. Antes que percebesse, já pensava lá na quinta série quando deixou um pum escapar na aula e todos riram e acusaram um menino de ser o autor do crime. Ela também riu e apontou o dedo, porque antes ele que ela. Agora se arrependia mortalmente. Gostaria de pedir desculpas, mas não lembrava o nome do menino.

– Homens, não pensem que esqueci de vocês! A aroeira é ótima pra queda de cabelo. Então você que tá começando a ficar calvo... é só massagear o couro cabeludo com o sabonete enquanto tá tomando banho! Ele também tira a oleosidade e a caspa do cabelo sem desidratar.

Daniela recuperou o foco. No livro, a personagem comia pizza com o chefe bonito e nerd em um encontro romântico. Era um daqueles trechos de aquecer o coração. Será que iam se beijar? Ela sentiu o portal se abrindo lentamente. Já não enxergava o papel, mas, sim, cenário e pessoas. Podia visualizar o queijo derretido da pizza em sua mente.

– Frieiras, coceiras, assadura... a aroeira é uma maravilha, né não amados?

O portal se fechou rapidamente e a cuspiu de volta para o mundo real. Aquele vendedor não calava a boca nunca? Antes que percebesse, Daniela olhou através da janela e viu a água lá embaixo. O ar ficou preso em sua garganta. Queria desviar o olhar, mas não conseguia. Estava paralisada. Hipnotizada.

– Ajuda até no combate a doenças sexualmente transmissíveis! Sífilis e gonorreia, por exemplo, é com o sabonete de aroeira! A essa altura, você deve estar se perguntando: o que é que a aroeira não faz? É uma pergunta difícil, tá amados?

70 metros de altura. Ela se imaginou levantando, descendo do ônibus e pulando. Seria tão fácil, tão horrível e fácil. Faria tudo parar. Seria doloroso, mas fácil. E não teria como voltar atrás. E se ela se atirasse? E ela finalmente tivesse coragem?

– Nas farmácias, vocês encontram o sabonete de aroeira por cinco reais. Mas aqui, comigo, você encontra pelo valor simbólico de apenas três reais. É isso mesmo! Você não ouviu errado, não! TRÊS REAIS, amados! Um por três e dois por cinco! Quem quiser, é só levantar a mão que eu vou estar indo até você. Muito obrigado pela atenção e tenham uma boa viagem!

O vendedor esbarrou em sua mochila ao passar pelo corredor com a cesta cheia de sabonetes. De repente, ela se sentiu grata pelo esbarrão. Tinha conseguido desviar o olhar. Não demoraria muito e passariam perto do Shopping Vitória. Só faltava um pouquinho... e era só não olhar pra baixo. Amanhã seria outro dia. Ela passaria por ali de novo, com os fones carregados, escutando seu podcast favorito, e não teria aqueles pensamentos horríveis.

– Amada?

Ela piscou. Era o vendedor, que já tinha ido lá no fundo e agora voltava pelo ônibus. O homem parou em frente a ela e estendeu a caixinha verde. Ela se perguntou em pensamento se a aroeira também era boa para depressão.

O vendedor sorria, apesar do suor empapando sua testa e dos círculos molhados debaixo dos braços.

– Você gostaria de um sabonete de aroeira?

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