Conto · Antologia Literária ALVV
O Enforcamento

Final de semana, feriado na terça com enforcamento na segunda. Vou para Cariacica, para o bairro do meu padrasto, ver minha mãe e meu irmão. Fico o final de semana todo com eles, mas na segunda, resolvo ver um amigo que está de passagem por Vila Velha e pretende retornar à Bahia em breve. Pego o 525 no terminal de São Torquato e passo no apê que estou alugando faz seis meses. Fica no Centro de Vila Velha, em uma rua bonita com casas charmosas. Tomo banho. Visto meu vestido azul e passo batom vermelho. Pretendia ir a pé, mas estou atrasada e acabo pedindo um Uber. A corrida se dá tranquila, e o motorista muito simpático conversa comigo sobre tudo e nada. Ele me conta que é de Minas, onde tem uma lanchonete, que mora em um apartamento perto da praia, o qual acabou de pagar e que às vezes trabalha de Uber para complementar a renda. Eu me perco e falo da minha vida, conto sobre como acho tudo caro neste lugar, mas que também adoro o fato de ter tantos bares e cafeterias legais perto de casa. Menciono o Brothers & Beers Steak Butiquim, onde gosto de relaxar das semanas exaustivas de trabalho. Ele pergunta se eu bebo, e digo que socialmente sim. Ele diz que ele também. Por fim chegamos ao endereço, e ele me pergunta se quero tomar uma cervejinha com ele hoje à noite. Sinto meu rosto esquentar. Fico nervosa. Tudo o que sai da minha boca é: obrigado. E depois que desço fico pensando que o certo é “obrigada”, já que sou mulher, e me pergunto se ele reparou no erro de nervosismo. Provavelmente não.
Entro no Terrafé da Praia da Costa, peço um chocolate suíço e espero. Meu amigo se atrasa alguns minutos, e quando chega conversamos sobre literatura e o mundo. Até de animes chegamos a falar. Vamos ao prêmio Nobel e ele reclama que não há autores bons o suficiente no Brasil hoje em dia, e eu discordo dele. Pouco antes de ir embora, ele se lembra de que sou escritora e se retrata. Eu não ligo. Não me acho boa para o prêmio Nobel, mas conheço muitos autores que sim. Ainda não engoli o fato da minha autora favorita, Lygia Fagundes Telles, ter perdido para o Bob Dylan. Nada contra o Bob Dylan, mas tudo a favor de Lygia. Poderia ficar horas discutindo sobre sua história e seu estilo de escrita, mas meu amigo nunca leu Lygia Fagundes Telles. Ele fala muito sobre Dostoievski e Salinger, autores que pretendo ler, mas não tenho tempo. Eu falo sobre escritores capixabas, mas não me aprofundo por medo de que ele ache maçante. Ele diz que deseja ingressar em economia na USP, e não pretende destrancar o curso de psicologia na UVV. Eu conto que quase comecei a cursar jornalismo na Faesa como segunda graduação, mas desisti por ser inviável no momento. Acabei de me formar em Letras Português e Inglês pela faculdade Saberes, com bolsa 100% pelo Nossa Bolsa. Dou aula em uma escola particular em Praia de Itaparica, e não me resta tempo ou disposição para outros projetos por agora. Nem dinheiro, já que estou pagando aluguel. Eu, que nunca morei sozinha antes.
Depois que o café termina, vamos até o ponto de ônibus na orla da praia para que eu vá embora. Meu amigo não anda de ônibus, não que eu saiba, mas espera comigo. E enquanto espera, nós vemos um casal meio bêbado caminhando pelo calçadão. O homem joga a caixa térmica na cabeça da mulher e ela bambeia. Ele continua a agredi-la física e verbalmente. Jovens que parecem conhecer o casal se aproximam e tentam separar os dois, mas desistem depois de um tempo. Eu não faço nada. Assim como todos por perto: eu apenas observo. Não sei o que eu poderia fazer, além de entrar no meio e levar um soco na cara. Eu que sou toda miudinha. Mais tarde, vou me julgar por isso, mas não há guardas por perto, e antes que eu pense em procurar um, meu ônibus chega. Abraço meu amigo e entro. Tento ver pela janela o desenrolar da cena: a mulher tenta agredir o homem de volta, mas ele a agarra. Ela está prestes a levar um soco quando o ônibus avança e eu não consigo ver mais.
Vou para o terminal de Vila Velha, e do terminal de Vila Velha para o terminal de Campo Grande. No caminho, escuto meu podcast favorito, Hodor Cavalo. Me ajuda a não pensar. Consigo ouvir um episódio inteiro e mais o começo de um outro antes de chegar ao meu destino. Salto um ponto antes e vou caminhando até o Shopping Moxuara. Passo pelo supermercado Perim e vejo, no estacionamento, um catador de latinha conversando com um homem carregado de compras. O catador de latinha joga um copo de plástico fora e o líquido cai no chão. Penso em perguntar se estou perto do Shopping, mas então vejo o catador erguer a mão para o homem e apontar-lhe o dedo na cara. Vejo o homem olhar para mim. Vejo-o erguer as próprias mãos em gesto de paz, querendo se afastar do catador. Não paro. Não sei o que está acontecendo ali, mas sigo em frente apressada, apreensiva. Mais à frente, encontro duas mulheres de uniforme conversando. Pergunto se estou perto do Shopping, e elas me dizem que é só virar a curva. Rapidamente chego e paro na entrada. Ligo para meu melhor amigo desde a faculdade e ele logo vem me encontrar. Nós paramos em um barzinho perto do apartamento dele, em Vila Capixaba. Comemos churrasco e bebemos Heineken. Fico bêbada e rio horrores. Falamos do trabalho, dos amores e das famílias. De todas as coisas boas e ruins. Ao fim da noite, vamos ao seu apartamento para eu fazer xixi e depois ficamos deitados na cama, pedindo Uber pelo aplicativo. Vários motoristas aceitam e logo recusam. Havia esquecido como é difícil conseguir uma corrida para o bairro da minha mãe. Só depois de muito tempo e do meu amigo implorar pelo chat para que o motorista não desistisse da corrida, é que finalmente consegui ir embora. Caía uma chuva fina e o motorista disse que era de Vitória. No rádio tocava ABBA e ele cantava baixinho. Eu amo ABBA. Naquele momento, eu estava completamente tranquila, meio sonolenta e em paz comigo mesma. Uma espécie de torpor delicioso me tomou.
Até que, de repente, na minha antiga rua, vejo um cara correr em direção ao carro, as mãos erguidas segurando uma arma e gritando conosco. O carro para. Eu, no desespero, digo:
— Ai meu Deus, moço, acelera! Vamos embora!
— Calma, fica tranquila...
Não penso na minha vida. Não penso na vida do motorista. Tudo que consigo pensar é que estou com o cartão de crédito da minha mãe na carteira, que ela me emprestou para comprar meus móveis, já que o dela tem o limite maior. Em parcelas, eu vou lhe pagando. Penso que se ele sumir, ela nunca mais vai confiar em mim.
O homem para ao lado da janela e aponta a arma para nós. O motorista diz calmo:
— Tô só levando a moradora.
E eu desesperada:
— Moço, pelo amor de Deus, eu moro aqui!
Não é verdade, mas ainda não me desliguei totalmente daqui. O homem não parece se importar. Ele deve querer que eu cale a boca, pois grita com a voz grossa:
— ESCUTA! – ainda apontando a arma para nós. – SEM POLÍCIA! DESCE A RUA E VAI PELA PRINCIPAL! ENTENDEU?!
Ele se afasta alguns passos, ainda apontando a arma, e o motorista volta a dirigir. Eu não consigo respirar direito.
— Desculpa, desculpa! – fico repetindo. – Isso nunca aconteceu comigo antes, e eu morei aqui por anos! Mil desculpas!
— Relaxa, moça, é normal.
— Não é. Se eu fosse você, nunca mais aceitava corrida pra cá. Desculpa mesmo! Não... consigo respirar... Acho que vou... ter... uma... crise... de... ansiedade...
E realmente não consigo respirar. Quero arranhar meu próprio pescoço, enfiar a cara pela janela fechada e respirar, mas não consigo me mover.
— Calma. – diz o motorista. – É normal.
Mas tudo o que consigo pensar é que isso não é normal. Ele para em frente ao meu portão. De algum modo, consigo explicar a ele a direção para chegar à rua principal, por onde o ônibus passa. Demoro a conseguir destrancar o portão porque minhas mãos estão tremendo muito. Entro em casa. Quero chamar minha mãe, mas todos estão dormindo e sei o quanto é difícil para ela fazer meu irmão dormir. Não posso acordá-la porque estou tendo uma crise. Sento na cama. Estou chorando mas ainda não consigo respirar direito. Mando mensagem para meu melhor amigo, com as mãos tremendo. Tropeço nas letras pelo teclado. Ele me conta uma experiência sua em que estava indo para casa dos pais em Vila Velha, às oito da noite, e correu de um tiroteio. Teve que se esconder numa igreja, e viu alguém cair morto perto dele, mas correu de lá. Os absurdos pelos quais temos de passar! Depois de um tempo conversando com ele, consigo organizar minha respiração. Aos poucos, paro de chorar. Não sei o que sentir.